haverá mil e uma expressões e frases feitas na língua de camões dignas de registo. desde que esta linha começou, conto pelo menos duas. mas poucas assumem a importância sócio-económico-linguístico-filosófica de um mui clássico «agora mete-se o verão.» desculpa inexplicavelmente aceite para isto a que se convencionou chamar "a sociedade" ser substituída pela preguiça. é como se disséssemos as palavras mágicas, uma espécie de cartão livre da prisão da vida, que podemos apresentar em caso de algum pedido ou responsabilidade. não mando o mail, não mando a carta, não respondo ao telefonema, não vale a pena insistir, não vai dar, sabe como é (sabemos perfeitamente como é), porque agora mete-se o verão. e o verão lá se mete, sabe-se lá aonde, o espaço-tempo às urtigas, os portugueses (apesar da crise, claro, como fará questão de noticiar o jornalismo) às praias. coçar o escroto, inundar os areais outrora desertos, ouvir música tenebrosa, fazer ultrapassagens perigosas, devorar a fauna pelágica, fotografar o efeito de rayleigh. tudo com o beneplácito do utente. e devidamente actualizado no facebook (se não, não conta). estranhamente o free pass profissional não funciona nas funções caseiras. hoje não faço a cama porque agora mete-se o verão - pelo menos em minha casa - não é dispensa válida.
enfim, o pior é que já vamos no segundo mundial seguido em que ganha «a melhor equipa». isto assim não se aguenta.
um tal de joão gaspar