#4 (de 4) :: sete e trinta e cinco da manhã ::
Olhou com atenção para os livros nas estantes e na mesa, e seguiu para o quarto. Mais do que a cama feita, surpreendeu-o não haver qualquer livro na cabeceira. Demorou algum tempo, subiu a um banco e espreitou por cima do roupeiro. Não encontrando nada, ou pelo menos nada do que procurava, deixou-se ainda um pouco, com olhos que focavam distâncias específicas, mas já não examinavam. Antes de sair espreitou debaixo da cama sem convicção, e entrou na cozinha, abriu o frigorífico de onde tirou café de um saco com fecho de plástico. Não concordava nada com este procedimento para armazenar o café. Disse-o tantas vezes. Cafeteira ao lume, sentou-se num banco baixo enquanto esperava que fervesse e repetiu o exercício do quarto. Tudo aparentemente na mesma. De chávena na mão, sentou-se no único maple da sala, esperou, adormeceu, e acordou não sabe quanto tempo depois com o som da chave na porta.
Marlene entrou de olhos nos papéis de publicidade que trazia, e foi menos ela do que o susto que disse Foda-se!, Nuno... Ele disse Olá, Marlene, e ajudou-a a recolher os papéis que tinha deixado cair. Ela achou por bem despachar o que quer que se passasse, sublinhou a inconveniência de ele ainda ter uma chave, entrar sem aviso, fazer-se em casa, perguntou o que se passava, fez o possível (patético) para ser desagradável. Precisava do skate, vim buscá-lo, disse ele a sorrir, Precisavas do skate., respondeu ela a tentar não o fazer, Nem eu nem os teus amigos alguma vez te vimos em cima daquilo, mas precisas?, sublinhou melodicamente "precisas". O sorriso dela aliviou-o, quase riu, Enfim, não preciso, gostava de o levar. Marlene desculpou-se sem arrependimento Dei-o ao puto lá de baixo, não foi por despeito, mas foi a única coisa que deixaste, assumi que, enfim, era um Zero, sabias?, o miúdo identificou logo.
Estaria Nuno deslumbrado ou confiante com o seu sorriso permanente (mas genuíno, reconheça-se), com os olhos pregados fundo nos de Marlene? Sem lhe tocar aproximou-se, preparou os lábios, inclinou devidamente a cabeça, preparou-se para cerrar os olhos. Sem lhe tocar, Marlene baixou os olhos, não se mexeu, e disse-lhe com a interjeição possível que não
Hm-hm!
Ele respondeu com a mesma fluência
hm-hm?...
Ela confirmou que não, com alívio
Hm-hm.
Despacharam os assuntos que restavam, o dia estava a começar tão bem para ele quanto mal para ela. Caso amanhã, disse Nuno revelando o que ele achava ser um certo tipo de coragem. Bem sei, não é possível ligar a puta da televisão sem vos ver, há quatro meses ainda aqui estavas. O encolher de ombros dele teria de chegar como pedido de desculpa. Entregou a chave, preparou-se para sair, perguntou pela cama feita.
Saíste cedo?
Não dormi.
Cá?
Em lado nenhum.
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Marlene tirou a cabeça do vidro a duas paragens de chegar. Às vezes, no autocarro, quase dormia, se calhar dormia, enfim, eram vinte e cinco minutos. Não se lembra da última vez que fez o percurso sem repetir mentalmente a manhã do skate (dois anos, em Setembro), ou a pensar no facto de repetir mentalmente, ou etc. Forçou-se a divagar, mas só tinha um taberneiro simpático e o anormalzinho do autocarro que parecia convencido ser possível ela não reparar.
Gouveia