- Não é hoje o teu dia de escrever?
- Sim, é hoje mesmo, e não outro dia.
- E então, por que não escreves nada?
- Nestes dias lembro-me sempre daquele verso de Alcides, n’O Misantropo, em que diz que devemos pôr freio nas comichões que temos de escrever, sob pena de, se o fizermos, expormo-nos a tristes figuras.
- Não conheço esse verso.
- Claro que conheces, até o Bloom o cita n’O Cânone Ocidental.
- Não me lembro, mas sobre esse assunto creio que já li algo em Camus.
- Penso que sim, n’O Mito de Sísifo talvez; há uma nota em que explica a mediocridade e a massificação que invadiu a literatura.
- O Faulkner também diz uma merda qualquer sobre tudo isso: de que não há mais nada de novo para se escrever, ou o raio.
- Essa é, na verdade, a razão e a natureza do modernismo.
- O Joyce escreveu aquela que é a maior obra do século XX, começando com um gajo a barbear-se; não haverá cena mais banal e sem interesse, e no entanto…
Porra!, já me cortei; tenho de deixar-me destes disparates enquanto me barbeio.
EVN