"Instruções-exemplos sobre a forma de sentir medo" (olá J.C.)
Numa noite quente de Verão está sozinho em casa, de janelas abertas e persianas corridas. Todos os aparelhos com algum tipo de motor param de funcionar ao mesmo tempo. A ventoinha eléctrica, o frígorífico, a refrigeração do portátil (mas não o portátil), a máquina de lavar. Em simultâneo uma massa de som de movimento que perde velocidade. Até que pára totalmente. As lâmpadas no tecto continuam ligadas, o televisor ainda transmite. Mas no ecrã, jogadores e árbitros não correm, técnicos e público não gritam. Olham para a câmara - para si - parados, em silêncio.
Na sala de cinema, sem tirar os olhos do filme, dá a mão à sua esposa que entrelaça os dedos nos seus da forma especial a que se habituaram durante mais de vinte anos, mas sente a mão dela coberta de pelos, compridos, densos, por cima, no pulso, em todos os dedos.
Depois de um fim-de-semana a enviar sms aos pais, namorado, advogada, chefe e a, pelo menos, três amigos (sempre sem resposta), um dos colegas do trabalho confessa ter trocado todos os nomes dos contactos do seu telefone uns com os outros na sexta-feira anterior.
De manhã, na pastelaria, percebe que o café está salgado, não doce. Nada de anormal aparenta o pacote de açúcar rasgado no pires. Quando olha para o empregado este acena negativamente, preocupado e sôfrego.
Na repartição de finanças, o jovem funcionário despede-se de si tratando-o por Xuguinho como sempre fazia a sua avó, e beliscando-lhe as costas da mão, um dos vários hábitos irritantes da velhota de que inevitavelmente sentiu saudades mais tarde.
Gouveia