Ao percorrer a história portuguesa contemporânea (utilizar maiúsculas em caso de emergência), com o indicador na linha a ler e o polegar lambido na página a mudar, encontrei o subcapítulo dos puros. Fez-me lembrar charutos e entrei. Tinha nos tetos e nas paredes grandes painéis de mogno e, pelos cadeirões de Luís catorze a dezasseis, distribuía-se um conjunto de pessoas sorumbáticas que fumavam, lá está, charutos. Dos bons: não estamos a falar de uma nota de rodapé, mas de algo com direito a figurar no índice. Cheirava bem e o silêncio de teflon só era cortado pela língua morta das inscrições nos frisos e nos capitéis. Os puros têm dificuldade em falar, especialmente uns com os outros, por razões anatómicas e porque a observação da diferença é incompatível com o reconhecimento da pureza alheia. Enquanto a engenharia continuar incapaz de nos trazer (ou levar a) uma solução melhor, o bico fechado permanecerá como a única forma não necessariamente fatal de enfrentar este dilema. Entretanto já estou quase no fim, a meio da ascensão e glória (utilizar maiúsculas em caso de necessidade), mas foram aquelas páginas tão limpas que continuaram embalando a leitura. Ficou a sensação (ou será o sentimento?) de que deveria ter deixado ali um marcador para memória eterna, largado o livro e imaginado o final.
E.