A morte e a imortalidade. A aproximação, o golpe, os respectivos rituais, o espanto, o luto, e o fim que significa a primeira - e toda a falta de sentido que ela traz à segunda. Os fragmentos góticos são também juvenilia (palavra que aqui pretende significar o que foi escrito antes dos 25 anos) e fui eu que os escrevi. Há uma certa autonomia em todos eles (escrevi bastantes mais) - a selecção, a coerência, a configuração defini-a (ou melhor, encontrei-a) a posteriori, mas hoje parece-me a melhor. O verso em itálico é citação, ou roubo. No que diz respeito à imortalidade, decidi traduzir o poema A Night Fragrance do W. S. Merwin. Este poema não ironiza tanto com a ideia de imortalidade como com o seu uso fora do jogo de linguagem metafísico (e nisso é muito wittgensteiniano), mas acho que faz sentido publicar a tradução em simultâneo com os fragmentos - não como apêndice ou anexo, mas por afinidade temática, por assim dizer. Esta introdução, devo por fim acrescentar, obviamente não a faria se não estivesse a publicar num blog. E desculpem o tom solene (amanhã soar-me-á ridículo, por certo), mas estou muito, realmente muito, cansado, e meio bêbado, e neste estado acho sempre por bem inserir toda a prudência entre cada palavra.
---------------------------------------------------------------------------------------------------------
(Juvenilia)
Fragmentos Góticos
I.
Dias odiosos teimam em pairar.
Não batem à porta: entram, instalam-se, e não saem.
Dias solitários e odiosos teimam em pairar.
II.
Cumpro a encíclica do terror
Ignorando a justeza, o rigor doutrinal
Confirmo a fé no redactor
Num devaneio espiritual.
III.
A seiva expectante coagula
No dia morno que fenece.
IV.
O tordo poisa distraído
No galho periclitante –
A folha não resiste à intempérie
E estala, como casca de ovo,
Sob os meus pés.
V.
Ao abrir o portão senti o mistério
Murmúrio de hálito chamuscado
Incenso que voga pelo cemitério
Onde os mortos renascem com o emblemático
Propósito de morrer outra vez.
VI.
Não mais tomar olhar terno por fraqueza
Ou sorriso inocente por irrisão;
Mas dos turvos semblantes ressoava simulada tristeza
E para essa ignóbil gentileza não há perdão.
VII.
A sólida estátua não ganha vida
Nem a impotência se ultrapassa
Ou assimila.
VIII.
Conhecer a implacável finitude
Do que julgamos perene
Quando nasce.
IX.
É Verão, o fruto está maduro
E a terra é leve para a enxada.
------
Uma Fragrância Nocturna
Hoje sou velho o suficiente para me lembrar
de pessoas falando de imortalidade
como de algo que soubessem existir
uma substância tangível que pudesse ser adquirida
para ser usada talvez na cozinha
todos os dias o que quer que façamos lá
para todo o sempre e eles aplicaram a palavra
à literatura e a nomes de coisas
nomes de pessoas e nomes de outras
coisas por eles e sem dúvida repetiram
essa palavra com algum elemento de crença
quando nomearam uma classe de mais de
uma centena de espécies de árvores e arbustos tropicais
alguns com flores mais fragrantes de noite
segundo James Theodore Tabernaemontanus
de Heidelberg físico e botânico
altamente conceituado na sua época há mais de
quatro séculos a imortalidade
talvez seja como as espécies disseminadas
continuando as suas variadas evoluções
com flores que se abrem de dia ou de noite
sem conhecimento de que carregam o nome
de alguém e a sua fragrância se
recorda de todo algo não o recorda a ele
W. S. Merwin
(pmramires)