Ignora a chuva, espera um pouco, deixa-me acabar. Ao chegar à rua dos plátanos orientais, ramos polimorfos geram vagas de prazer, e pensamos: está aqui finalmente um local onde não temos de procurar a graça em pingos de sombra, ela ergue-se triunfante perante nós... Mas com o tempo nasce uma sugestão de futilidade no curto inebriamento das sensações. A sensibilidade empanturrada… como se tivéssemos pupilas gustativas! Na biblioteca, um novo olhar… E o que fazer com ele? A criatividade falha, a emoção da descoberta esgota-se em fútil devaneio. A originalidade? Um barco de recreio em águas profundas… Malabarismos, piruetas. Há algum tempo que te queria dizer isto: perdi-me em bailados de sofisticação, habilidades enfadonhas… O que era radioso é hoje luz parda, francamente embaraçosa quando tem de ser exibida. Esboços, esboços, esboços… esboços de quadro nenhum! Dei por mim numa porta giratória, numa elegante e confortável porta giratória… passava o tempo nela, girei até ficar enjoado, girei até não ser mais possível saber de onde vim e para onde queria ir… E agora que parei de girar, não foi devido a uma opção, compreendes, é isso que me perturba, não defini nada, sinto que houve apenas uma súbita quebra de energia… Diabos, chove a pique! Maldita chuva, vamos para dentro antes que fiquemos encharcados.
pmramires