Foi na viagem para casa, em plena auto-estrada, que foi tomada pelo pânico de uma repentina, violenta, amnésia. Total. Encostou à berma, arrepiou-se com o arranhão da segunda mudança quando reduziu, e olhou em volta. Alfa Romeo, dizia no centro do volante. O ambiente lá fora era todo novidade, se tinha um destino não sabia dizê-lo, devia ter um nome, pai e mãe, colegas, se calhar um namorado (filhos?), mas não conseguia. Nada. Começou, naturalmente, a chorar. Da mala tirou o telemóvel, a última chamada dizia Mami, achou má ideia ligar-lhe neste estado. A seguinte dizia Tó. Ligou e esperou em silêncio.
[o leitor pode agora optar entre um destes Tós, o final não será influenciado pela escolha]
Tó 1 - Então, caralho?! Estou à tua espera cheio de fome há horas. Onde é que te enfiaste?
Tó 2 - Olá, môr. Tás onde? Que tal o dia?, bem, já me contas, começo o jantar?
[continuemos]
Desligou o telefone sem dizer nada e ligou o carro, um Sprint vermelho que o pai lhe tinha oferecido quando fez dezoito anos. Arrancou, deu o jeitinho que a segunda precisa para entrar e seguiu para casa. A memória voltou com a voz do marido, mas sem estrondo, sem choque, sobressalto ou qualquer sensação transcendente. Chegou a duvidar do que se tinha passado. Fez o caminho sem sorrir e tentou descobrir se existiria alguma forma de, reincidindo, aconselhar-se em antecipação (uma nota na carteira, uma mensagem escrita no telemóvel, alguma coisa) a não deixar fugir a oportunidade, não fazer perguntas, e ir embora de vez com a benção de um reboot.
Mas nada sequer parecido voltou a acontecer em toda a sua vida.
Gouveia