uma coisa perigosa
em the shawshank redemption, a personagem do morgan freeman - apropriadamente apodada de red - avisa-nos que a esperança é uma coisa perigosa. mais do que a esperança, perigoso é o optimismo. a esperança implica o passar do tempo, e o tempo cura tudo. se não cura, pelo menos mata. menos mal. não podemos tirar a espera da esperança, e esperamos que corra tudo bem. pelo menos esperamos, menos mal. já o optimismo é mais imediato. o optimismo está a meio passo da fé, a mais perigosa das irracionalidades. um optimista, mais do que confiar, acredita. crê que é capaz, sem se dar conta da desambiguação semântica que o crer encerra. crê como quem palpita. crer não é crer. crer é querer acreditar. todos querem ser optimistas porque o optimismo ilude (e isso é útil, não nos iludamos). os governantes dizem-se optimistas, os treinadores de futebol estão sempre optimistas, os mercados querem estar optimistas. todos têm um produto a vender, e a fé do optimismo vende melhor que nada. os consumidores, cegos, querem ter um olho para ser os reis do optimismo. a esperança é mais inócua. eu espero, tu esperas, nós - desesperados - esperamos. e o tempo passa. não é mau. espero, sento-me, e faço um manguito ao optimismo.
o optimismo é uma coisa perigosa. que o digam os gajos da armada invencível.
* texto publicado há quase cinco anos noutro sítio, que não interessa para nada no sentido em que não tem interesse nenhum. ligeiramente editado porque me apeteceu. o shawshank redemption já faz este ano vinte anos. dedicado a todos os que estão nesse sítio de esperas e de esperanças chamado avante.
um tal de joão gaspar