Por vezes tomamos pequenas e irrelevantes decisões para as quais a prudência se revela fundamental. Talvez tenha sido essa consciência que me levou a tolerar o esquecimento das chaves de casa, depois de ter atravessado a cidade com as dificuldades do calor. Parei em frente às escadas, levei a mão ao bolso e, no instante em que me apercebi da imprudência, sorri e voltei à origem. Forçado a passar a hora do almoço numa esplanada, disposto a não projectar no mundo a fúria da minha própria frustração, ali me deixei ficar, vencido pelas temperaturas. A felicidade começa quando nos reconciliamos com a serendipidade do mundo. Quando crescemos, queremos crescer, paramos de nos divertir, tornamo-nos caprichosos e prudentes, em excesso, na direcção do ocaso que assim nos faz fatalistas. Só depois de renunciarmos a esta imposição da adultícia aproximar-nos-emos de uma felicidade antiga, menos infantil, mais livre. Porque é esse o momento da tolerância e da empatia, aquele em que deixamos de levar tudo muito a sério. Agora que reparo, começou a chover.
jorge c