Há pelo menos duas horas que não pára de chover.
Sentado no chão, de olhos na lama, teve vontade de tirar as botas, deitar-se para trás, mandar tudo às malvas. Recordou discussões dos pais, a vista sobre Lisboa, o barco. Agarrou um bocado de barro nas mãos, imaginou-o areia quente, imaginou-se numa arena em Agosto, homem de cara, Sol forte. Correu sonhos antigos: todos eles profissões de coragem, é assim que se sonha na infância, pensou. Se fugir à confusão, se fizer agora tudo bem, dirão que foi inteligente, e que salvou o dia quando outros perderam a cabeça, mas é um heroísmo sem carácter, convenceu-se.
Já esteve em piquetes e lockouts, e sempre lá à frente, de peito aberto. Enfim, isto não é nenhuma guerra, só parece. Pensar noutras merdas: é preciso outro berbequim, fez uma lista de compras mentalmente, papel higiénico, desentupidor, diluente, ando nisto de acabar o anexo há quase um ano, mau aspecto do caraças... Lembrou-se do bife da Trindade, e da gaja do Samouco aqui há uns anos. Ia deitando tudo a perder com esse disparate.
Levantou os olhos, para os camaradas, que continuavam naquela zorra com os outros, uns investiam, uns agarravam-se, até um apito autoritário ter reposto a ordem possível. Ergueu-se, soprou o bigode e avançou, como se não fosse suposto falharem-lhe as pernas. Andou dois passos, correu os restantes, até junto deles, sem esforço. Nove horas por dia a malhar nas rodas do comboio com uma marreta de oito quilos nas mãos talvez seja essa a explicação para a tal força de que vocês falam, mas o fumo da forja anda a dar cabo de mim, disse-lhes uma vez.
Já tinha passado da hora há muito, faltava só este momento, pegou na bola, ajeitou-a para o penalty de uma falta que ele próprio sofrera, e contou as passadas para trás. O mais velho aproximou-se, deu-lhe um murro no braço e piscou-lhe o olho: acaba com isto, Carlos.
Gouveia