no outro dia acusaram-me de ser, imagine-se, boa-pessoa. eu, pá. boa-pessoa, pá. há com cada maluco. não pense o amigo leitor que sou gajo de me ficar: só não estrangulei de imediato o autor de tal alarvidade porque sou um esteta e, admitamo-lo, o pouco jeito para o estrangulamento com que fui dotado não me permitiria executar a manobra com o efeito letal que, estou certo, todos desejaríamos. transformei a raiva toda num sorriso torpe e fui para casa, envergonhado por não ter resposta à altura, vencido no duelo do insulto. eu, que nunca fiz méritos para nada mais do que coisa alguma, acusado de bom-pessoismo. onde é que isto já se viu. eu, que nem pontuar uma frase em condições consigo consistentemente. eu, indivíduo cujo único objectivo na vida é sobreviver. sobreviver e não deixar passar o ponto ideal dos ovos mexidos, vá*. eu, pá. boa-pessoa, pá. boa-pessoa são os mortos e eu não morri nem espero morrer antes de vocês.
* um dia, com mais calma, falamos desse ébola culinário que é deixar passar o ponto ideal dos ovos mexidos.
um tal de joão gaspar