Uma tarde lenta e pesada, consumida em desejos tantalizantes, apenas amenizados pela serenidade de uma zona ribeirinha... Vastos lençóis de indolência, a espera de rapazes entorpecidos por uma insuportável e melancólica passividade, antecipando a noite... Um mergulho revigorante, súbita agitação de células na memória, imaginação que lança o anzol a um oceano que sabe estéril, para se sentir viva... Deambulação fugidia, ténue, impressionista… Solta-se a verve, padroniza-se o calor... Multifacetada e doce e frívola, infiltra-se a noite… Noite intencional e espontânea, lúcida e infantil, irresistível, estranha à hostilidade e ao cinismo jocoso, atordoada por uma espécie de ressaca por antecipação de tudo o que aí vem... Noite ébria e sonâmbula, apocalíptica incubadora de mistérios nunca desvendados, cada espaço uma gaiola onde nos é possível esgueirar por entre as grades, como selvagens celebrando em liberdade a sua natureza animal... Máscaras de celofane que brilham de vitalidade e suor... Recortes vertiginosos: a estranheza de uma perna dobrada no braço de um sofá… E lábios vincados por fendas estaladiças como papel de estanho, tímida pele estilhaçada por beijos lúbricos num sopro juvenil… Noite tropical e autêntica e depravada – noite sonhada, noite realizada.
pmramires