Segunda-feira, 1 de Dezembro de 2014

 

VII

 

No meio do caminho da vida, contornou o passeio e entrou dentro de uma loja. Comprou vários tipos de material: gesso, pincéis, tintas, telas. Ia experimentando diferentes técnicas, maneiras de fazer emergir a torrente que o ameaçava engolir. Pegou num pedaço de gesso que estava junto a si. Sentiu-lhe a textura, tatuou-lhe presságios, uma ideia figurava a matéria. Com as mãos a articularem uma massagem infinita, os veios iam-lhe inflamando vida, esculpiam por dentro o que ia tomando forma por fora; a consciência a brotar de um amasso mais impetuoso. Quando terminou, ao fim de longas horas, viu que tinha erguido uma figura humana semelhante a uma mulher. Vénus desabrochou do doce leito quando a escultura já esperneava. Aprontou-se logo a assinar o despacho a autorizá-lo a desposar o que dele emanou. Por ser um processo demiúrgico em círculo, a matéria tinha ficado contaminada, a mácula estava ostentada no olho direito, o defeito estava simultaneamente na origem e no fim, precisava de ser destruída, recolher ao sentido inicial, uma amálgama disforme: um artista acidental projectara a ilusão mais perfeita, moldou-a, tomou-a para si, mas a realidade não podia coincidir com a criação.

 

gisandra

despesadiaria às 15:15
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