essas ardentes vias, II
Ver para lá da obscenidade, que está lá e parece não estar, que se dissolve na fantasia. Daniel atirava esta ideia de Goncourt ao ar, apanhando-a primeiro com uma só mão e depois, mais convencido, com o corpo inteiro. Racionalizar o voyeurismo, beber rum Brugal, comer tomates recheados são tarefas para o corpo inteiro e cada gesto molda o pensamento; talvez Daniel nunca se lembrasse de Goncourt se não tivesse, por acaso, encontrado um álbum de pornografia tentacular que o lembrou d’ O sonho da mulher do pescador de Hokusai que o lembrou das palavras de Goncourt sobre as gravuras Shunga; talvez fosse o cheiro adocicado dos tomates ou as menos doces palavras da ruiva; talvez o Brugal que sempre o lembrava de parafilias, panamás e de professores de filosofia pederastas a pulular, com os seus fatos brancos e água-de-colónia francesa, nesse paraíso dominicano – luz, calor, e um ardor que começa e acaba com uma receita médica: “um comprimido antes de, e cuidadinho com o tomatal, amigo”.
(continua)
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