I
Orfeu digere o jantar obsoleto que Eurídice lhe tinha deixado num tupperware antes de entrar na serpentina da madrugada: a estação de comboios estava vazia, as horas cíclicas da população ainda não tinham ecoado o seu alarme, caminhava à beira da linha farejando o odor contaminado do mel. Com uma mácula na vista esquerda, Orfeu vislumbra permanentemente a dança de um fole a soprar-lhe nas têmporas. Lembra-se de agora, desaparece nas metamorfoses da mente, tece composições novas nos ouvidos, a lira destemperada a escurecer de aranhas no canto do quarto: uma luz extinguiu-se, não há lâmpadas nos candelabros dos homens. Na sala, o vídeo transmite o cenário das apropriações toscas da sua criação maior e, enquanto a cabeça de javali guincha no estômago e a laranja que lhe cobria o focinho escorre pelos dedos cinzelados, a notícia do não-regresso chega. Estava bem. Não ia resgatá-la, a sua ausência sobrepunha-se à ordem narrativa, a cegueira já era o inferno, não comparecia na segunda morte, era preciso que um epílogo determinasse o princípio da queda. Dizia-se que era um velho poeta velho recostado na cadeira do mito, com um copo infinitamente meio vazio de Cardhu, umas gravações perdidas da Karen Dalton que lhe chegaram não sabe de onde e um estilhaço à porta que fere quem chega.
gisandra